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meu mussunzinho.

meu mussunzinho.

30/10/2007 21:21

ah, dona maria martha!
definitivamente, a alegria das minhas manhãs na clínica.

a dona maria martha era a minha protegida, declaradamente. admiti no meio do round, pra professor e residente, que, dela, cuido eu. a tiazinha cativou, fazer o quê?

conheci ela lá na emergência. 'putz, vou lá pro pronto-sus fazer história. que saco', pensava eu descendo as escadas.

chego na salinha de espera, e ela me abre um sorrisão.

-- dona maria martha? meu nome é thiago, tudo bem? eu estou na equipe que vai atender a senhora.
-- meu guri, se tivesse tudo bem, eu não tava aqui. eu tava em casa. minha bunda já tá doendo de ficar aqui sentada nessa cadeira, e, pior, com a perna pra cima. dá pra me transferir pros quartos?
-- calma, dona maria martha. tá cheio lá em cima, tem gente na espera, tem que ficar por aqui mesmo. assim que der a gente te sobe. pode ser?
-- pode, meu querido. pode.

eu pensando 'bom, tudo sob controle. ganhei a tia'.

que tia, meu amigo. dona maria martha era uma moça - e das brabas. dona maria martha teria que ser conquistada. paixão tem que ser batalhada, não vem fácil assim.

eu ali, enchendo ela de pergunta. ela, respondendo tudo com uma resposta mais desaforada que a outra. daquelas que não se segura a risada. e, claro, se responde à altura.

-- a senhora fuma?
-- não, não.
-- bebe?
-- ah, só um pouco. nada de mais não. bebo minha caipirinha quando tou na noite, chacoalhando meu mocotó.

u-hu!

-- meu guri, pra que tanta pergunta? eu só quero subir pro quarto. minha bunda tá que não aguenta mais.
-- tá bem, dona maria martha. assim que der.
-- mas logo!

e assim foi.

levei pro consultório, pra fazer o exame físico.

-- guri, pra que tu quer examinar tudo? só tá doendo a minha perna. daqui a pouco, vai querer que eu fique pelada aqui pra ti.. só o que me falta!

e a danada tava com queixa de dor na virilha.

-- pois é, dona martha. a senhora insistiu, eu vou ter que palpar essa dor na virilha..
-- ô guri safado!

saí rindo da sala de exames pra escrever a tal da história. tinha como não?

-- achei que a minha doutora ia ser o meu pedacinho de gente que me atendeu da última vez.. então, tu vai ter que ser o meu novo pedacinho de gente.

mentira, dona maria martha. eu virei o 'meu amorzinho', que nem ela me recebia todo dia no 652. não interessava quem fossem a visitas que ela tivesse recebendo, eu via ela cochichando 'agora, dá licença que chegou o meu amorzinho.'

eu comecei a guardar ela como última visita de toda manhã. via todo mundo no andar e ia lá passar uma meia horinha com ela. e batia papo, e ouvia desaforo, e examinava. perguntava como ela tinha passado a noite, e ela queria saber como eu tinha passado a minha. tentava me arrumar com todas as enfermeiras do andar.

-- e aquela? é bem bonitinha. eu vou te arranjar com ela.

na CARA da enfermeira.

-- não é bonitinha? não é?
-- é, dona maria martha. mas eu tenho namorada, lembra?
-- que namorada o quê, meu amor. eu vou te arranjar com essa enfermeira aqui.
-- mas dona maria martha..

reza a lenda que a moça passou, na internação passada inteira, tentando casar a tal doutora pedacinho-de-gente com o doutor chefe-da-doutora-pedacinho-de-gente.

-- meu amor, a tua namorada é bonita?
-- claro, dona maria martha. baixinha braba, que nem eu gosto. coisa mais linda.
-- eu quero ver.

eu, 7 da manhã, batendo foto da maria clara no celular pra mostrar pra ela.

-- não, meu amor. essa não serve pra ti, é feia. eu vou te arranjar com aquela enfermeira ali, e pronto -- pra todo mundo do quarto ouvir.
-- mas dona maria martha..

e depois, todo mundo no quarto pedindo pra ver a tal foto.

-- é por isso que tu todo dia vem me ver, meu amorzinho. tu tem a tua loirinha em casa, o teu peixinho dourado. e passa as manhãs com a neguinha que tu tanto gosta o, teu mussunzinho aqui.

eu já avisei: 'dona maria martha, a alegria das minhas manhãs é a senhora. e só quem toca na senhora sou eu, viu? a senhora reclama que eu aperto, que dói, que eu fico perguntando coisa demais.. mas só eu posso, viu? só quem pode machucar a senhora sou eu. se alguém aqui vier examinar a senhora, não deixa e manda falar com o thiago que eu me resolvo com eles.'
-- isso mesmo!

e, na saída do quarto, pra ninguém ver, ela vira e fala, cochichando:

-- que coisa mais linda a tua namoradinha!

pode?

..

e no dia que a dona maria martha tava com queixas e eu tive que perguntar sobre a vida sexual da moça?

ah, essa não tem como contar pra vocês. vamos preservar a minha paciente, pô.

mas que foi bacana, foi.
e rendeu piada interna pra semana inteira.

..

toda sexta, ela perguntava se eu vinha ver ela no fim de semana. e eu 'deus me livre, dona maria martha. eu só tenho dois dias da semana de folga da senhora, me deixa em paz.'

e ela se ria gostoso.

sábado, eu, de plantão, evoluindo os pacientes. no caminho do quarto dela, vi ela no corredor indo pra outro quarto. fiquei quietinho e fui atrás, só vendo onde ela ia.

chegou num outro quarto cumprimentando todo mundo. era beijo na testa de um, piadinha com outro, querendo saber como todo mundo tava. e eu ali, quietinho. não queria atrapalhar a visita da dona maria martha - ela é daquelas que visita todo mundo no andar pra saber se todo mundo tá bem.

e todo mundo adora.

dois minutos depois, o pessoal do quarto viu que eu tava lá. e ela, toda feliz: 'tu tá aqui, meu amorzinho!'

surpresa, beibe :)

e fui abraçado com ela até o quarto pra examinar.

..

no último dia de internação, eu cheguei de mão machucada. ralei na roda de um carrinho de rolimã descendo lomba num churrasco da 07. tava que nem conseguia escrever.

-- me dá essa mão aqui que eu vou benzer pra ti.

eu, rindo. ela, mais rápida, roubou a minha mão e começou a benzer mesmo.

e foi aí que eu descobri que a dona maria martha era benzedeira de profissão. e das boas.
todo aquele mundo de gente que tava lá visitando ela toda manhã era cliente. e olha que ERA GENTE.

foi um tal de sussurrar 'osso quebrado, carne moída' que eu tive que botar meu voto de fé ali.

não deu outra. um anti-inflamatório e uma benzidinha, e no dia seguinte minha mão tava nova.

..

inevitavelmente, a moça ia embora. e quando chegou o dia, eu fiquei bem triste. mesmo. naquele clima de despedida de velho amigo, sabe?

fiquei lá de papo com ela um tempão. me enrolando, checando tudo. conferindo todas as datas de consultas futuras dela. listando cada probleminha, e combinando com ela que que ela ia fazer.

e, na hora do inevitável tchau, tive que pedir a foto.

as duas primeiras, ela ficou séria de doer. não entraram aqui. na que entrou, eu fiquei horrível - mas não tinha como botar foto da dona maria martha de bico. tinha que ser com o sorrisão que ela me abria todas as manhãs.

e olha que o da foto não é nem metade dele.

-- que que é isso, dona maria martha? todo dia passa rindo e fazendo piada comigo, e logo na hora da foto vai ficar séria?
-- é só pra tu não sentir muita saudade de mim.. -- disse ela.

e tem como, dona maria martha?

eu não tenho vergonha nenhuma de ser emotivo com paciente. ajoelho no chão pra conversar, beijo mão, chego abraçando, dou peteleco na orelha, faço piada, dou abraço.

mas, na dona maria martha, eu tive que dar um beijão na bochecha e um abraço daqueles bem apertados. aqueles meus de de 'vai com deus, minha amiga. eu vou ficar com saudade.'

e, eu garanto, foi recíproco.

ela disse que volta pra me ver no fim do ano. tomara.

mas nada de clima triste, thiago. ela me garantiu que tava melhor, que ia pra casa bem e feliz, que ia tomar os remédios, que ia ficar com a perna pra cima que nem eu mandei.

..e que ia chacoalhar bastante o mocotó.

então eu fico mais tranquilo, dona maria martha.


l: trio mocotó - kriola.

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